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Enquadramento no rol do CONAMA não dispensa a prova do potencial poluidor

Por que a inclusão da atividade no complemento normativo não substitui a demonstração concreta da elementar do tipo

Por Cláudio Farenzena · Diretor do FONADAM — Fórum Nacional de Direito Ambiental · 30 de agosto de 2026

Enquadramento no rol do CONAMA não dispensa a prova do potencial poluidor

O enunciado atribui ao CONAMA a definição das atividades efetiva ou potencialmente poluidoras que completa o tipo de operar sem licença. A consequência menos percebida dessa estrutura é probatória. O rol indica quais atividades se sujeitam ao licenciamento, sem provar que a atividade concreta tinha potencial poluidor, elementar que a autoridade precisa demonstrar caso a caso.

A definição das atividades efetiva ou potencialmente poluidoras que complementa a norma administrativa em branco tipificadora do operar sem licença compete ao CONAMA, órgão federal colegiado, não podendo ser ampliada por ato estadual ou municipal, sob pena de o ente local invadir a competência federal e criar, sem respaldo legal, nova hipótese de infração que também constituirá crime.
Enunciado do FONADAM, matéria Infrações e sanções administrativas.

A redação aprovada trata de uma norma administrativa em branco, isto é, de um tipo cuja descrição depende de complemento externo. O complemento escolhido pela proposição é a definição das atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, atribuída a órgão federal colegiado. A escolha das palavras efetiva ou potencialmente poluidoras reproduz a fórmula legal.

A consequência jurídica fixada pelo enunciado é a invalidade da ampliação local do rol. A finalidade é impedir que a extensão de um tipo sancionador, com reflexo penal, varie conforme o ato normativo de cada Estado ou Município. O tipo permanece com o alcance que a esfera federal lhe deu.

O enunciado não resolve, em sua literalidade, o que ocorre quando a atividade consta do rol federal e a autuação nada afirma sobre a poluição concreta. A resposta a essa questão vem da estrutura do próprio tipo, que exige atividade poluidora e não simples atividade listada. A distinção separa dever de licenciar e infração punível.

Por que a presunção do potencial poluidor prejudica quem é autuado?

A presunção transfere ao autuado a prova de fato negativo. Quando a autoridade sustenta que a atividade é poluidora porque figura em uma lista, o autuado precisa demonstrar que a operação concreta não tinha aptidão para degradar, sem que nada tenha sido produzido em sentido contrário. A inversão contraria a distribuição do encargo probatório no direito sancionador.

A Lei 9.605/1998 descreve, no artigo 60, a conduta de construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores sem licença dos órgãos ambientais competentes. A qualificação da atividade integra a descrição legal. A qualificação não é motivo da norma, e sim elemento da conduta punível.

O Decreto 6.514/2008 repete a estrutura no artigo 66, ao tratar de estabelecimentos, atividades, obras ou serviços utilizadores de recursos ambientais, considerados efetiva ou potencialmente poluidores, operados sem licença ou em desacordo com a licença obtida. A fórmula legal exige duas verificações distintas, e a segunda costuma ser omitida na prática da fiscalização.

O prejuízo concreto aparece em atividades de pequeno porte, em operações intermitentes e em empreendimentos que passaram por alteração de escala. O enquadramento genérico produz autuação idêntica para situações materialmente diferentes, o que afeta a dosimetria e, em alguns casos, a própria tipicidade da conduta.

Quais fundamentos sustentam a exigência de demonstração concreta?

A exigência decorre da estrutura da norma em branco, da repartição de competência para editar o complemento e da diferença entre sujeição ao licenciamento e potencial poluidor verificado. Os três fundamentos operam em conjunto, e a defesa perde força quando invoca apenas o último.

Como funciona a norma administrativa em branco no tipo de operar sem licença?

A norma em branco descreve a conduta e remete a outro ato a definição de um de seus elementos. No tipo de operar sem licença, o elemento remetido é a relação de atividades sujeitas ao licenciamento. A remessa não altera a natureza do elemento remetido.

Uma consequência prática decorre dessa estrutura. A autuação precisa indicar o complemento normativo aplicado, sob pena de a descrição do fato permanecer incompleta, exigência tratada em auto de infração por operar sem licença exige indicação do complemento normativo. A indicação do complemento é pressuposto da defesa, sem substituir a prova da qualidade poluidora.

Por que a definição do rol cabe ao órgão federal colegiado?

A definição do rol produz efeito sobre a extensão de um tipo sancionador com correspondência penal. Permitir que cada ente local amplie a relação equivale a admitir a criação de infrações por ato administrativo de alcance regional, com tratamento desigual entre administrados em situação equivalente. A competência federal colegiada preserva a uniformidade dessa definição.

A vedação alcança a ampliação, e não o detalhamento. Um ente local pode disciplinar procedimento, prazos e documentos do licenciamento que lhe compete, sem acrescentar atividades à relação que completa o tipo. A distinção está desenvolvida em rol de atividades poluidoras é competência do CONAMA e não do ente local.

O que distingue sujeição ao licenciamento de potencial poluidor concreto?

Sujeição ao licenciamento é situação jurídica definida em abstrato, por categoria de atividade. Potencial poluidor concreto é qualidade verificável da operação examinada, apurada por porte, tecnologia empregada, insumos, destinação de resíduos e sensibilidade do meio atingido. Uma categoria não substitui a outra, porque operam em planos distintos.

A confusão entre os dois planos aparece quando a fiscalização descreve apenas a existência da atividade e a ausência da licença. A descrição atende ao primeiro plano e ignora o segundo. A diferença entre impacto inerente à atividade licenciável e dano efetivo aparece tratada em impacto ambiental licenciado não é dano e não autoriza autuação.

Como aplicar essa exigência na defesa administrativa?

A aplicação começa pela separação, no processo, entre o que foi afirmado sobre a categoria da atividade e o que foi verificado sobre a operação concreta. A defesa administrativa deve nomear essa distinção de forma expressa, porque a autoridade julgadora tende a tratar a listagem como suficiente quando ninguém lhe apresenta o problema.

O que verificar no auto de infração e no relatório de fiscalização?

Verifique se existe indicação do ato que completa o tipo e se esse ato é federal. Verifique, em seguida, se o relatório de fiscalização descreve elementos concretos de potencial poluidor, como emissões, efluentes, resíduos, ruído, supressão de vegetação ou captação de recursos. A ausência dessa segunda camada é o ponto central da impugnação.

O que a autuação afirma e o que a autuação precisa demonstrar
ElementoComo costuma aparecer na autuaçãoO que a defesa deve exigir
Complemento normativoCitação genérica de norma de licenciamentoIndicação do ato federal que define a atividade como poluidora
Categoria da atividadeMenção ao código ou à descrição do rolCorrespondência entre a atividade real e a descrição do rol
Potencial poluidorAfirmação implícita, extraída do enquadramentoDescrição de elementos concretos verificados em campo
Porte e escalaAusência de referênciaRegistro do porte efetivo, com reflexo na dosimetria

Como se demonstra a ausência de potencial poluidor concreto?

A demonstração se faz por prova técnica sobre a operação examinada, com laudo que descreva insumos, processo produtivo, volumes e destinação de resíduos. Documentos de dispensa de licenciamento emitidos pelo próprio órgão competente também servem, quando existentes. O objetivo é confrontar a afirmação abstrata com dados verificáveis do caso.

Havendo controvérsia técnica relevante, requeira a produção de perícia no próprio processo administrativo, com quesitos dirigidos à aptidão de degradar. O pedido deve ser específico, porque requerimentos genéricos de prova costumam ser indeferidos sem exame de mérito.

Quais erros comuns comprometem a tese?

O primeiro erro é sustentar que a atividade não precisaria de licença, quando o rol federal a alcança de forma clara. A tese correta admite a sujeição ao licenciamento e discute a demonstração do potencial poluidor no caso concreto. Confundir as duas alegações enfraquece as duas.

O segundo erro é discutir a competência do ente local sem verificar qual ato foi efetivamente aplicado. A alegação de ampliação indevida do rol depende de identificar a norma estadual ou municipal utilizada, tema desenvolvido em ampliação local do rol de atividades poluidoras não cria crime ambiental.

O terceiro erro é deixar a discussão técnica para a fase recursal. A prova sobre a operação concreta pertence à instrução, e a autoridade julgadora costuma recusar a produção tardia com fundamento em preclusão.

O que a nota explicativa acrescenta ao enunciado?

A nota explicativa registra que deixar o ente local ampliar o rol equivale a permitir-lhe alargar as condutas típicas sem competência, ferindo a legalidade e a reserva à esfera federal. A formulação identifica o vício no plano da competência normativa, antes de qualquer discussão sobre o mérito ambiental da exigência.

A nota acrescenta, em seguida, que o mero enquadramento no rol não presume o potencial poluidor, elementar do tipo que precisa ser demonstrada em concreto. A frase completa o raciocínio e oferece o fundamento direto da tese examinada neste texto. A listagem resolve a sujeição ao licenciamento, e a prova resolve a tipicidade.

Do conjunto resulta uma orientação de trabalho. A defesa que discute apenas a competência do ente local deixa intacta a autuação apoiada em rol federal legítimo. A defesa que discute apenas a poluição concreta perde o argumento estrutural quando o complemento aplicado é de origem local.

As duas frentes se somam. A ordem de apresentação depende do ato efetivamente indicado no processo, e a leitura desse ato deve preceder a redação da impugnação.

Perguntas frequentes

O IBAMA pode me multar por operar sem licença se a minha atividade não polui?

A qualificação da atividade como efetiva ou potencialmente poluidora integra a descrição legal da conduta. A autuação exige demonstração dessa qualidade na operação concreta, sem se contentar com a inclusão da atividade em relação normativa.

A prefeitura incluiu a minha atividade na lista de licenciamento e isso vale?

O ente local pode disciplinar o licenciamento de sua competência, sem ampliar a relação de atividades que completa o tipo sancionador federal. Ampliação por ato municipal ou estadual não cria hipótese válida de infração para esse tipo.

Fui autuado por falta de licença e o órgão ambiental estadual nunca exigiu essa licença antes. Isso ajuda?

O histórico de não exigência não afasta, por si, o dever de licenciar. A circunstância tem relevância na demonstração de boa-fé e na dosimetria da penalidade, e pode indicar dúvida objetiva sobre o enquadramento da atividade.

O rol de atividades sujeitas ao licenciamento é taxativo?

A relação define as categorias alcançadas pela exigência de licenciamento e limita, para fins sancionatórios, o alcance do tipo que dela depende. Ampliação por ato de outra esfera não integra validamente esse complemento.

A ausência de demonstração do potencial poluidor é vício sanável?

A resposta depende do momento. Complementar a instrução antes da decisão, com nova oportunidade de defesa, difere de suprir a omissão na própria decisão final, quando o contraditório sobre o ponto já não pode ser exercido.

O enunciado dispensa o empreendedor de obter licença ambiental?

Não. A proposição trata dos limites do tipo sancionador e da competência para definir seu complemento. O dever de licenciar segue as normas próprias do licenciamento e permanece exigível.

O que o FONADAM propõe com este enunciado?

O Fórum Nacional de Direito Ambiental reúne proposições destinadas a tornar previsível a aplicação da norma sancionadora. A escolha dos temas segue a experiência de quem atua na defesa, identificando pontos em que a prática administrativa avança sobre o desenho legal do tipo.

O tipo de operar sem licença é um desses pontos, porque sua estrutura em branco convida à aplicação automática. Fixar que o complemento é federal e que o potencial poluidor exige demonstração devolve ao processo administrativo a função de apurar, no lugar de confirmar.

O conjunto de proposições aprovadas está reunido na coleção de enunciados do FONADAM, com as respectivas notas explicativas e a indicação da matéria a que cada texto pertence.

Qual a conclusão prática?

A definição das atividades efetiva ou potencialmente poluidoras completa o tipo de operar sem licença e pertence à esfera federal colegiada. Ato estadual ou municipal que amplia essa relação não produz hipótese válida de infração, ainda que discipline validamente o licenciamento local.

A inclusão da atividade na relação resolve a sujeição ao licenciamento e não resolve a tipicidade. O potencial poluidor é elementar da conduta e reclama descrição de elementos concretos verificados em campo, com prova técnica quando houver controvérsia.

A estrutura da norma em branco e o papel do complemento estadual ou municipal estão examinados em complemento por norma estadual ou municipal no artigo 60 da Lei 9.605, com desenvolvimento sobre a atipicidade da imputação sem o complemento em denúncia sem a norma complementar do artigo 60 é atípica.

Um caso concreto sobre a ausência de potencial poluidor está relatado em sem potencial poluidor, a falta de licença não configura crime. A leitura conjunta ajuda a dimensionar o alcance da tese na defesa administrativa e na esfera criminal.

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