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Motivação per relationem só vale se o parecer enfrentou a defesa

Remissão a peça genérica e padronizada gera nulidade do julgamento administrativo

Por Cláudio Farenzena · Diretor do FONADAM — Fórum Nacional de Direito Ambiental · 15 de agosto de 2026

Motivação per relationem só vale se o parecer enfrentou a defesa

O enunciado admite a motivação por remissão e fixa a condição de validade dessa técnica. Remeter a parecer anterior só motiva a decisão quando o parecer referido enfrentou as alegações concretas da defesa. Remissão a peça genérica e padronizada, que nada diz sobre as razões apresentadas pelo autuado, produz aparência de motivação e acarreta a nulidade do julgamento.

Enunciado aprovado pelo FONADAM na matéria Processo administrativo: "A motivação per relationem, por remissão a parecer ou manifestação anterior, só é válida quando o ato referido houver efetivamente enfrentado as alegações da defesa, ao passo que gera nulidade a simples remissão a anterior peça genérica e padronizada que não incursiona nas razões defensivas."

A redação aprovada escolheu o advérbio "efetivamente", e a escolha impõe verificação de conteúdo. Não basta que exista parecer no processo, nem que a decisão o mencione. Exige-se que o documento incorporado contenha exame real das razões defensivas, aferível pela comparação entre a defesa e o parecer.

A consequência jurídica definida pelo texto é a nulidade da decisão que remete a peça padronizada. O vício não está na técnica da remissão, que permanece legítima, e sim na inexistência de raciocínio a incorporar. A finalidade é assegurar ao autuado o direito de saber por que sua defesa foi rejeitada.

O enunciado deixa questões em aberto. Não estabelece o grau de correspondência exigido entre defesa e parecer, nem define o tratamento de alegações manifestamente impertinentes. Também não resolve o caso do parecer que enfrenta parte das razões e silencia sobre outras, situação que exige exame do peso da alegação omitida.

Por que isso importa na prática do processo administrativo ambiental?

Importa porque a decisão por remissão é o formato dominante no julgamento de defesas administrativas ambientais. Um despacho curto acolhe o parecer da assessoria técnica ou jurídica e aplica a penalidade. Quando o parecer é modelo reaproveitado entre processos, a defesa nunca é lida no julgamento.

O efeito prático é a criação de uma tese verificável documentalmente. A comparação entre o texto da defesa e o texto do parecer revela se houve exame, e a ausência de qualquer referência às alegações concretas fica demonstrada por leitura simples, sem necessidade de prova técnica.

Há um ganho adicional de organização da defesa. Peças defensivas com alegações numeradas e títulos próprios tornam a omissão mais visível, porque cada ponto não enfrentado pode ser apontado individualmente no recurso administrativo.

Para a Administração, o enunciado não proíbe a economia processual da remissão. Estabelece que a economia depende da existência prévia de um exame real, o que direciona o esforço institucional para a qualidade do parecer, e não para a extensão do despacho.

Quais fundamentos sustentam a exigência de exame real das razões da defesa?

O fundamento inicial é o dever de motivação dos atos administrativos que afetam direitos. A motivação existe para permitir controle, e o controle depende de conhecer as razões que levaram à rejeição da defesa. Remissão vazia impede esse controle e frustra a finalidade da exigência.

Como o contraditório e a ampla defesa operam neste enunciado?

O contraditório assegura ao autuado influir no resultado do processo, o que pressupõe que suas alegações sejam consideradas. Defesa apresentada e não examinada torna o contraditório aparente, porque a participação existiu na forma e não produziu efeito algum sobre a decisão.

Qual é a norma federal de referência sobre motivação?

A referência central é a Lei federal 9.784, de 1999, que disciplina o processo administrativo na esfera federal, exige motivação com indicação dos fatos e fundamentos jurídicos e admite a fundamentação por declaração de concordância com pareceres anteriores. O texto está em Lei 9.784 de 1999, no portal do Planalto.

O que a jurisprudência tem afirmado em termos conceituais?

A orientação consolidada admite a motivação per relationem como técnica válida, desde que o ato incorporado contenha fundamentação idônea sobre a matéria decidida. A leitura é conceitual, e sua aplicação ao processo sancionador ambiental exige demonstração de que o parecer referido dialogou com a defesa concreta.

Como aplicar a tese na defesa administrativa e judicial?

A aplicação começa pela obtenção da cópia integral do processo administrativo, com o parecer referido na decisão. Sem esse documento, a alegação de motivação aparente fica no plano da afirmação e não se sustenta perante a instância revisora.

Como demonstrar que o parecer é padronizado?

Compare o parecer com peças de outros processos do mesmo órgão, quando disponíveis, e destaque a ausência de qualquer elemento individualizador do caso. Indique que o documento não menciona datas, coordenadas, documentos juntados nem argumentos específicos da defesa apresentada.

Como estruturar a comparação entre defesa e parecer?

Monte quadro de duas colunas com a alegação defensiva de um lado e a passagem correspondente do parecer do outro. Deixe em branco as linhas sem correspondência. O quadro converte a alegação de omissão em demonstração documental verificável pelo julgador.

Quais erros comuns enfraquecem a alegação?

O erro mais frequente é sustentar nulidade por decisão sucinta, quando a brevidade não é vício. Outro erro é ignorar que a instância revisora pode suprir a motivação em alguns casos. O terceiro é deixar de indicar qual alegação específica ficou sem resposta.

Como se comparam as formas de motivação encontradas nos julgamentos?

As formas se distinguem pelo conteúdo do ato incorporado, e não pela extensão do despacho que remete a ele. A tabela abaixo organiza os cenários mais recorrentes no julgamento de defesas administrativas ambientais.

Formas de motivação por remissão e validade segundo o enunciado
Conteúdo do ato referido pela decisãoSituação da defesaValidade segundo o enunciado
Parecer que examina cada alegação da defesaRazões enfrentadas de forma expressaMotivação válida por incorporação
Parecer genérico e padronizado, sem referência ao casoRazões não examinadasNulidade por motivação aparente
Parecer anterior à apresentação da defesaRazões sequer conhecidas pelo pareceristaNulidade por impossibilidade lógica de exame
Parecer que enfrenta parte das alegaçõesRazões relevantes sem respostaExame do peso da alegação omitida no resultado

O que a nota explicativa acrescenta ao texto do enunciado?

A nota explicativa afirma que o que se incorpora pela remissão é um raciocínio real, e não uma etiqueta. O acréscimo é operacional: dirige a verificação para o conteúdo do parecer e afasta a discussão sobre a forma do despacho que a ele remete.

A nota registra ainda que o autuado tem direito a saber que sua defesa foi examinada, sem bastar que tenha sido mencionada. A distinção entre exame e menção fornece o critério prático de identificação do vício em cada julgamento administrativo.

Como a nota orienta a redação do recurso administrativo?

A nota indica a sequência: identificação do ato referido, demonstração de que ele não incursiona nas razões defensivas e conclusão pela nulidade por ausência de motivação substancial. A ordem impede que o recurso discuta o mérito antes de firmar o vício da decisão.

Quais teses vizinhas costumam acompanhar esta alegação?

São comuns a alegação de dúvida não resolvida em favor do autuado, tratada em in dubio pro reo no processo administrativo sancionador, e a discussão sobre distribuição do ônus probatório, examinada em inversão do ônus da prova em favor do autuado.

O vício de motivação no próprio auto de infração é tema correlato e distinto, aprofundado em vício de motivação no auto de infração ambiental.

Perguntas frequentes

O órgão ambiental pode julgar minha defesa só dizendo que acolhe o parecer técnico?

Pode, desde que o parecer acolhido tenha examinado as alegações apresentadas na defesa. Se o documento é modelo padronizado que não menciona o caso concreto, a decisão é nula por motivação aparente segundo o enunciado.

Minha defesa foi ignorada no julgamento do auto de infração: o que fazer?

Obtenha cópia integral do processo administrativo, identifique o parecer referido na decisão e demonstre, ponto a ponto, quais alegações ficaram sem resposta. A demonstração documentada sustenta pedido de nulidade em recurso administrativo e em ação anulatória.

Decisão curta é sempre decisão sem motivação?

Não. A extensão do texto não define a validade da motivação. Despacho breve que remete a parecer consistente e individualizado atende à exigência, enquanto decisão longa composta de fórmulas gerais pode configurar motivação aparente.

A instância recursal pode corrigir a falta de motivação da primeira decisão?

Em determinadas hipóteses o julgamento do recurso enfrenta as razões defensivas e supre o defeito anterior. A convalidação depende de exame efetivo das alegações no ato superior e não ocorre quando a instância revisora repete a remissão genérica.

O parecer emitido antes da defesa pode fundamentar o julgamento?

Parecer anterior à apresentação da defesa não pode ter examinado alegações que ainda não existiam. Decisão que a ele remete para rejeitar razões defensivas apresenta vício lógico de motivação e é nula.

Preciso indicar qual alegação ficou sem resposta?

A indicação específica fortalece a alegação e reduz o risco de a instância revisora considerar o vício irrelevante. Recurso que apenas afirma falta de fundamentação, sem apontar o ponto omitido, costuma ser rejeitado.

Como o FONADAM trata este enunciado?

O Fórum Nacional de Direito Ambiental aprova enunciados para elevar o padrão de qualidade das decisões no processo sancionador ambiental. A proposição sobre motivação por remissão responde a uma prática institucional identificada em julgamentos de diferentes órgãos ambientais.

A formulação aprovada não condena a técnica da remissão. Preserva a economia processual que ela permite e condiciona sua validade à existência de exame real, o que protege a defesa sem impor formalismo desnecessário à Administração.

O conjunto das proposições aprovadas está disponível na página de enunciados do FONADAM. Um caso concreto de reconhecimento judicial do vício está relatado em decisão sem motivação anula auto de infração.

O que fica deste enunciado para a prática?

Fica o critério de que a remissão incorpora conteúdo, e conteúdo inexistente nada incorpora. Decisão que acolhe parecer padronizado para rejeitar defesa individualizada é imotivada na substância, ainda que formalmente indique fundamento.

Para a defesa, a orientação prática é estruturar a peça com alegações numeradas e depois confrontar cada uma com o parecer referido no julgamento. O confronto documentado converte a percepção de descaso em vício jurídico demonstrável.

Para a Administração, o enunciado indica caminho de baixo custo. Parecer que dedica um parágrafo a cada alegação relevante sustenta o julgamento por remissão e reduz o risco de anulação com retorno do processo à origem.

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