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Despacho de encaminhamento não interrompe a prescrição intercorrente

Por que remessas entre setores e certidões de trâmite não são atos de apuração do fato

Por Cláudio Farenzena · Diretor do FONADAM — Fórum Nacional de Direito Ambiental · 19 de agosto de 2026

Despacho de encaminhamento não interrompe a prescrição intercorrente

Despachos de mero encaminhamento, remessas burocráticas entre setores e certidões de trâmite não interrompem nem suspendem a prescrição intercorrente trienal. A razão está no conteúdo desses atos, que não instruem o processo nem apuram o fato imputado. Praticados durante a fase recursal, servem apenas para movimentar papel entre unidades administrativas e não impedem o reconhecimento da prescrição.

Despachos de mero encaminhamento, remessas burocráticas entre setores ou certidões de trâmite processual ocorridos durante a fase recursal não configuram atos de instrução ou apuração fática e, portanto, são inaptos para obstar o curso do prazo da prescrição intercorrente trienal (art. 1º, § 1º, c/c art. 2º, II, da Lei 9.873/1999).

Enunciado aprovado pelo FONADAM, matéria Prescrição.

A redação aprovada trabalha com um critério de conteúdo, e não de forma. O que qualifica o ato como interruptivo é a aptidão para apurar o fato, e não o nome que recebe no sistema de tramitação. Despacho, certidão e remessa são rótulos, e a análise recai sobre o que cada peça efetivamente produziu no processo.

As palavras do enunciado impõem um teste verificável a quem examina os autos. Cada ato praticado no período deve ser confrontado com a pergunta sobre o que ele acrescentou à apuração dos fatos. Peças que apenas registram movimentação não passam nesse teste e devem ser desconsideradas na contagem do prazo.

A consequência jurídica definida é a manutenção do curso do prazo trienal, com o consequente arquivamento do processo. A finalidade é impedir que a Administração simule andamento por meio de atos vazios. O enunciado não trata do prazo de cinco anos da pretensão punitiva original nem do prazo de execução do crédito já constituído.

Por que a qualificação do despacho importa na prática?

Importa porque a defesa que alega prescrição intercorrente recebe, quase sempre, a mesma resposta do órgão ambiental. A manifestação aponta um ou dois despachos praticados no período e sustenta que o processo teve andamento. A qualificação do conteúdo desses atos decide se a alegação prospera.

Processos administrativos ambientais federais costumam permanecer anos aguardando julgamento de recurso. Durante esse intervalo, o sistema registra remessas entre setores, certidões de trâmite e despachos de encaminhamento à unidade seguinte.

Nenhum desses registros produz prova nova. O relatório do agente de fiscalização já havia sido juntado, a vistoria não se repete e a defesa não recebe resposta. A movimentação existe no sistema e não existe no conteúdo dos autos.

O efeito prático da tese é direto. Reconhecida a prescrição intercorrente, os autos são arquivados de ofício e a multa deixa de ser exigível. Um caso concreto está descrito em decisão sobre despachos que não interromperam a prescrição de multa do IBAMA.

Quais são os fundamentos da exigência de impulso útil?

O fundamento é o próprio texto legal, que exige ato inequívoco de apuração do fato. A Lei 9.873/1999 prevê a incidência da prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, com arquivamento de ofício ou a requerimento do interessado. O critério legal é qualitativo e não se satisfaz com movimentação aparente.

O que a norma considera ato inequívoco de apuração do fato?

Considera o ato que efetivamente instrui o processo. O Decreto 6.514/2008 é expresso ao dizer que se consideram atos inequívocos da Administração aqueles que impliquem instrução do processo. Vistoria, laudo técnico, requisição de documento, oitiva e parecer que enfrenta a defesa preenchem o requisito. Encaminhamento e certidão de trâmite não preenchem.

Por que a fase recursal é o terreno próprio desse debate?

Porque a apuração fática se encerra, em regra, com a decisão de primeira instância. Depois dela, o processo aguarda julgamento e a atividade típica passa a ser decisória, e não instrutória.

Atos praticados nesse intervalo raramente acrescentam elemento de prova, o que torna a fase recursal o campo natural da prescrição intercorrente. Sobre o tema, veja o estudo sobre prescrição intercorrente trienal.

Qual a diferença entre prescrição da pretensão punitiva e prescrição intercorrente?

A prescrição da pretensão punitiva atinge o poder de apurar e punir, com prazo de cinco anos contado da prática do ato ou da cessação da conduta permanente. A prescrição intercorrente atinge o processo já instaurado que permanece paralisado por mais de três anos. As duas convivem e podem ser alegadas em conjunto, com fundamentos autônomos.

Como aplicar o enunciado na defesa?

A aplicação depende de trabalho documental preciso sobre o andamento do processo. A alegação genérica de paralisação não convence. A alegação que apresenta linha do tempo completa, com classificação individual de cada ato, coloca o órgão ambiental na posição de indicar qual peça teria instruído o processo.

Como montar a linha do tempo do processo administrativo?

Solicite cópia integral dos autos e relacione, em ordem cronológica, cada peça com data, nome do ato e número de folha. Marque a decisão de primeira instância e a interposição do recurso, porque delimitam o período relevante. Some os intervalos entre atos com conteúdo real de apuração para localizar a paralisação superior a três anos.

Como classificar cada ato praticado no período?

Separe os atos em duas colunas, conforme tenham ou não produzido elemento de apuração. Descreva o conteúdo de cada peça em uma linha, sem adjetivos. A classificação transparente reduz o espaço para resposta evasiva do órgão ambiental.

Sobre a exigência de ato de apuração, veja caso em que a falta desse ato levou à anulação do auto de infração.

Quais erros comuns comprometem a tese?

O primeiro erro é contar o prazo a partir da lavratura do auto de infração, e não do último ato de apuração efetiva. O segundo é ignorar atos praticados a pedido da própria defesa, que podem interromper o prazo quando implicam instrução.

O terceiro erro é deixar de juntar a cópia integral dos autos, o que transfere ao julgador o ônus de reconstruir a cronologia do processo.

O que a nota explicativa do enunciado acrescenta?

A nota explicativa fixa o critério de forma direta ao afirmar que só interrompe a prescrição intercorrente o ato de real instrução ou apuração do fato. Despachos de encaminhamento, remessas entre setores e certidões de trâmite são qualificados como atos burocráticos, sem conteúdo decisório ou probatório, e não impulsionam efetivamente o processo.

A nota explicita, em seguida, a consequência de aceitar o contrário. Admitir tais peças como marcos interruptivos permitiria à Administração simular andamento e manter vivo o poder de punir por prazo indeterminado. Exigir impulso útil e efetivo é o que dá sentido ao prazo legal e coíbe a tramitação aparente.

Classificação dos atos praticados no processo administrativo ambiental para fins de prescrição intercorrente
Ato praticadoConteúdoEfeito sobre o prazo
Vistoria ou laudo técnicoProduz elemento de prova sobre o fatoInterrompe
Requisição de documento ao autuadoBusca elemento de instruçãoInterrompe
Parecer que enfrenta a defesaAprecia argumento e prova dos autosInterrompe
Despacho de encaminhamentoDireciona o processo a outro setorNão interrompe
Certidão de trâmiteRegistra movimentação do processoNão interrompe
Remessa burocrática entre unidadesTransfere a guarda dos autosNão interrompe

A tabela funciona como roteiro de trabalho sobre os autos. Cada peça do período recebe uma linha e uma classificação. O resultado da soma dos intervalos entre atos interruptivos revela se o prazo trienal se completou.

Perguntas frequentes

Meu processo no IBAMA ficou parado anos. A multa prescreveu?

A prescrição intercorrente incide quando o procedimento permanece paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho. A verificação depende de conferir se algum ato de instrução real foi praticado no período, e não do simples cálculo do tempo entre a autuação e a decisão.

Despacho que manda o processo para outro setor conta como andamento?

Encaminhamento entre setores não instrui o processo nem apura o fato, de modo que não serve como marco interruptivo. A movimentação registrada no sistema não se confunde com atividade de apuração.

O órgão ambiental juntou uma certidão e afirmou que o prazo recomeçou. Isso vale?

Certidão de trâmite registra movimentação e não produz elemento de prova sobre o fato imputado. A alegação deve ser respondida com a demonstração do conteúdo da peça, que não alcança o requisito legal de apuração.

Qual o prazo da prescrição intercorrente no processo administrativo ambiental federal?

O prazo é de três anos de paralisação, pendente de julgamento ou despacho, conforme a Lei 9.873/1999. O reconhecimento leva ao arquivamento dos autos, que pode ocorrer de ofício ou mediante requerimento do interessado.

A prescrição intercorrente pode ser reconhecida de ofício?

Sim. O texto legal prevê o arquivamento de ofício ou a requerimento da parte interessada, o que confirma tratar-se de matéria de ordem pública. A ausência de alegação da defesa não impede o reconhecimento pela autoridade julgadora.

A abertura de vista à procuradoria configura ato de apuração do fato?

A simples abertura de vista, sem manifestação que enfrente a defesa ou produza elemento de instrução, não configura apuração. O parecer que efetivamente analisa a prova e os argumentos do processo tem natureza distinta e pode servir como marco interruptivo.

O que o FONADAM sustenta com este enunciado?

O Fórum Nacional de Direito Ambiental sustenta que o prazo de prescrição existe para ser cumprido e que a atividade estatal precisa ser real. A leitura formalista do ato interruptivo esvazia a garantia e converte o processo sancionador em situação permanente. O enunciado oferece critério objetivo para separar impulso útil de movimentação aparente.

A padronização também protege a coerência da própria Administração. Unidades diferentes atribuem valor interruptivo a peças idênticas, o que gera decisões contraditórias em casos iguais. A adoção de um critério de conteúdo reduz essa dispersão. As proposições aprovadas estão reunidas na página de enunciados do FONADAM.

A proposição aqui comentada integra um conjunto sobre prescrição no processo sancionador ambiental. A proposição de que o ato nulo não interrompe a prescrição e a de que a prescrição intercorrente extingue o processo e o termo de embargo completam o quadro e devem ser lidas em conjunto pela defesa.

O que fica assentado sobre despachos de trâmite e prescrição intercorrente?

Fica assentado que o critério de interrupção é de conteúdo. O ato precisa apurar o fato ou instruir o processo, e o nome que recebe no sistema de tramitação não altera essa exigência.

Fica assentado que despachos de mero encaminhamento, remessas entre setores e certidões de trâmite não interrompem o prazo trienal, ainda que praticados durante a fase recursal. A soma dos intervalos entre atos de instrução efetiva é o que define a incidência da prescrição.

Para a prática, o trabalho é de reconstrução documental dos autos, com classificação individual de cada peça. O regime da prescrição da ação punitiva da Administração Pública Federal está na Lei 9.873/1999, cujo texto oficial pode ser consultado no portal da Presidência da República.

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